O coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019 na China, e em poucos meses conseguiu se espalhar pelo mundo. Essa rápida disseminação não é por acaso e tem grande semelhança com a forma como uma notícia se propaga em redes sociais.
Na internet, o conceito de distância não faz muito sentido se você pensar bem. Gastamos o mesmo tempo enviando uma mensagem para alguém do nosso lado ou para uma pessoa no Japão. Esse nível de conexão mediada pela internet permite a propagação rápida e fácil de informação ao redor do mundo. Infelizmente, as dinâmicas de sistemas complexos e conectados também auxiliam na disseminação de vírus e outras coisas. Para enxergarmos o caminho que o vírus traça da China até os outros países, temos que esquecer o conceito de distância e pensar somente no tempo. Eu demoro 5h e 30min para ir de Belo Horizonte até a minha cidade natal, são 334km de carro. Porém, para ir a São Paulo eu levo só 1h indo de avião, de carro são 588km. Então, efetivamente, São Paulo está mais perto de Belo Horizonte do que minha cidade natal, apesar da grande diferença de quilômetros.
Essa distância efetiva nos deixa muito mais próximos de países como a China, Itália e EUA do que imaginamos. A figura abaixo foi feita por pesquisadores de Berlin, usando os dados de conexões de todos os aeroportos do mundo. Os lugares mais afastados no gráfico são mais difíceis de se chegar, porque temos que passar por mais aeroportos e leva mais tempo. Repare que para ir do Aeroporto de Confins (BH) até a China, só é necessário passar por dois lugares: Guarulhos (SP) e Paris (França). Olhando para a distância efetiva não estamos tão longe assim da China, na verdade é bem fácil ir pra lá.

Na imagem abaixo temos todas as conexões entre os aeroportos do mundo.

Retirei essas figuras da página de um grupo de pesquisas de Berlin (Link). Este mesmo grupo disponibiliza a visualização dá distância efetiva e as conexões entre cada aeroporto do mundo (link).
Todas essas conexões que nos permitem viajar de forma fácil pelo mundo, também possibilita que o coronavírus se espalhe com mais facilidade. Some esse nível de conexão ao fato de que o vírus demora de 2 a 14 dias para causar sintomas em uma pessoa infectada e temos uma tempestade perfeita. Pessoas andando pelo mundo carregando o vírus e sem apresentar sintomas.
A animação abaixo mostra os lugares onde temos casos de corona vírus confirmados, os pontos vermelhos são os lugares novos confirmados naquele dia e os pontos amarelos são os países que já tiveram casos confirmados em dias anteriores. O gráfico abaixo do mapa mostra os 10 países com maior número de casos confirmados naquele dia. Repare em como os casos na Itália e nos EUA crescem rápido.
Existem muitos estudos sobre redes complexas e cheias de conexões como a dos aeroportos e a da internet. O que pode ser usado de forma direta desses estudos é que, quanto maior o número de conexões, mais fácil é a propagação de informação. Por exemplo, um YouTuber com muitos seguidores (muitas conexões) consegue passar informação para milhares de pessoas em pouco tempo. O mesmo é valido para o vírus: se ele consegue infectar uma cidade com um aeroporto importante, que tem muitos voos (conexões) para todo o mundo, ele vai conseguir se disseminar com mais facilidade.
A forma mais eficiente de impedir essa propagação é cortando essas conexões, ou seja, fechando os aeroportos de áreas infectadas e impedindo pessoas doentes de viajar. Porém, já passamos desse ponto, não é mais eficiente só fechar aeroportos, agora temos que cortar as conexões geradas pelas pessoas. Em essência, essas conexões são iguais às dos aeroportos.
Um caixa de supermercado trabalhando doente é equivalente a um aeroporto com muitas conexões, pois consegue distribuir um vírus para centenas de pessoas que são atendidas diariamente. Inclusive, essa pessoa vai conseguir infectar gente que nem ao supermercado foi, como a figura abaixo mostra. Por isso, para conter a disseminação do vírus, é importante diminuir o contato com as pessoas e principalmente não ir trabalhar doente.
Até agora, o que podemos dizer sobre a taxa de mortalidade do vírus é que ela depende muito das decisões tomadas pelo governo. O gráfico abaixo mostra a taxa de mortalidade atual em cada país. Perceba a diferença entre a China e a Itália, enquanto a primeira tem mais de 80 mil casos confirmados e uma taxa de mortalidade próxima de 4%, a segunda tem 30 mil casos confirmados e uma taxa de 8%. As escolhas que fizermos agora vão influenciar os resultados de amanhã.
Todos os países estão tendo dificuldades em controlar a propagação do vírus. O único país que conseguiu até agora foi a Coreia do Sul, apesar de um surto inicial grande. Essencialmente, o que o governo da Coreia do Sul fez foi diminuir e rastrear as conexões entre as pessoas, principalmente as infectadas pelo vírus. O esforço foi enorme, pois usaram o seguinte procedimento: após uma pessoa ser identificada como infectada, eles pegavam os dados do GPS e do cartão de crédito dessa pessoa, cruzavam esses dados com os dados de GPS e cartão de crédito de outras pessoas e encontravam quem tinha passado a menos de 100 metros da pessoa infectada. Depois disso, todas as pessoas que tinham passado perto do infectado eram testadas para ver se tinham o vírus. Somando isso à restrição de saída das pessoas, limpeza de metrôs e outras medidas, eles conseguiram controlar o vírus.
A China também já conseguiu controlar o número de casos recentemente. Para isso, fecharam Wuhan, a cidade de origem do vírus no dia 23 de janeiro, pouco mais de 20 dias após confirmarem um novo tipo de vírus. Ainda assim, a China teve 80 mil casos confirmados e demoraram dois meses para começar a ver os número de casos se estabilizar. É importante lembrar que estamos falando de uma das maiores economias do mundo, com recursos suficientes para gastar.
Observe nos gráficos abaixo como o número de casos da China e da Coreia do Sul se estabilizam com o tempo:
Coreia do Sul:
China
Nossa crise ainda está só começando. Se o governo e as pessoas agirem de forma correta, o nosso número de casos vai se comportar como o da Coreia do Sul, crescendo um pouco inicialmente e depois se estabilizando.
Brasil:
O que não pode acontecer é seguirmos o mesmo comportamento dos gráficos da Itália e dos EUA. Nos hospitais da Itália, os médicos já escolhem quem vai ser atendido. Eles estão dando preferência para os mais jovens e mandando os mais velhos para casa. Os gráficos da Itália e dos EUA estão abaixo. Repare no crescimento exponencial de casos confirmados dos EUA, não vai demorar muito até eles terem problemas sérios.
Itália:
USA:
O estado de São Paulo se encontra em uma situação parecida com a de Wuhan no começo da crise. Se usarmos o que aprendemos com a China e com a Coreia do Sul, podemos controlar melhor a situação. Agora depende do governo tomar as decisões certas e as pessoas colaborarem ficando em casa, evitando aglomerações, trabalhando em regime de “home office”, se possível, e sempre lavando as mãos. Assim, podemos conseguir uma taxa de mortalidade baixa.
Comentários:
• Água e sabão é tão eficiente quanto álcool em gel.Então não precisa ficar correndo atrás disso o tempo todo.
• Cientistas estão tentando encontrar uma vacina para o coronavírus, mas isso pode demorar de 1 a 2 anos.







